08 Setembro 2008

A outra metade

Domingo à noite. Dou por mim a ver a reportagem da SIC, que mostrou a vida de alguns casais portugueses, de Norte a Sul. Ponto comum a todos eles: residirem no interior do país, naquela metade que teima em resistir ao apertar do cerco em torno das vilas e aldeias que, com dificuldade, ainda povoam aquela faixa que quer mostrar que também é Portugal.
De Vimioso a Alcoutim, quatro exemplos de como se vive num pais que, na maior parte das vezes, parece esquecido pelo poder central em Lisboa. E ao ver a reportagem dei por mim a ver… Paredes de Coura, pois todos eles eram concelhos com uma grande área mas reduzida população onde se destaca a falta de oportunidades de trabalho para os jovens, já para não falar dos menos jovens.
Mas ao mesmo tempo são municípios que não baixaram os braços perante a dura realidade e que oferecem equipamentos sociais e culturais dignos de qualquer cidade do litoral, quando não mesmo melhores. Concelhos que, porventura abrindo mão de dinheiros que poderiam ser utilizados noutras áreas, oferecem incentivos à natalidade e à fixação dos habitantes e que disponibilizam terrenos a preço simbólico para a construção de habitação ou, mais importante, para atrair empresas para aquelas zonas. Nada que já não tenhamos ouvido antes aqui por Coura.
E da reportagem ressaltavam duas coisas. Por um lado a constatação, especialmente pelos de fora mas também por quem residia naqueles concelhos, de que usufruem de uma qualidade de vida superior à do Litoral mais povoado. Mas, como dizia uma das intervenientes na peça, “ haverá qualidade de vida sem emprego, sem oportunidades?”. Por outro lado, os autarcas foram unânimes em considerar que, apesar de todos os benefícios que atribuem aos seus munícipes, quer para incentivar a natalidade quer para atrair investimento e postos de trabalho, a solução do problema daqueles concelhos, um dos quais com apenas seis nascimentos registados no corrente ano, o principal está ainda por fazer e depende… do Governo. Se o Governo continuar a não olhar para a outra metade, de que vale o esforço dos autarcas para fazer parte de um único país?

05 Setembro 2008

Vem aí o "Papão"

Abre hoje em Tui o segundo maior Outlet de Espanha. Oitocentos postos de trabalho, quase uma centena de lojas e muitos descontos de um lado do rio Minho. Do outro, depois de anos de estagnação, deita-se as mãos à cabeça.
O outlet de Tui promete descontos que variam entre os 30 e os 80 por cento, IVA mais baixo que o português e um posto de abastecimento de combustíveis. E a julgar pelos dois pisos subterrâneos de estacionamento está a contar com muitos visitantes, quer portugueses, quer espanhóis. Muito provavelmente os mesmos portugueses e espanhóis que têm dado dinheiro a ganhar aos comerciantes de Valença que, agora, com o lobo ali já dentro do curral é que se preocupam em reforçar a vedação.
Casa roubada, trancas à porta. O velho ditado continua actual, basta ver que os comerciantes de Valença, e a própria União Empresarial do Vale do Minho, estão a reagir ao retardador, quando deviam ter prevenido a fuga dos muitos euros para o lado de lá da fronteira. Durante anos foi um “fartar vilanagem” em que bastava abrir uma qualquer loja num qualquer vão de escada para ganhar dinheiro à custa dos turistas. Roupa, atoalhados, louças faziam as delícias de quem visitava a fortaleza e arredores e ali esvaziava a carteira e nem sequer era preciso publicidade. Havia lá coisa melhor?
Pelos vistos pode haver. É que o comércio valenciano assustou-se com o investimento ali mesmo ao lado e deve ter pensado que, se calhar, estava na hora de fazer alguma coisa pela dinamização do comércio tradicional naquela vila, alguma coisa que atraísse os clientes mesmo quando a concorrência surgisse. E só agora, que vêm que o chão lhes pode fugir debaixo dos pés, é que se preocupam, numa atitude tipicamente portuguesa. Brincadeiras à parte, é mais que certo que, mesmo não se dirigindo ao mesmo público-alvo, o novo outlet de Tui vai mexer, e de que maneira, com o comércio local de Valença. É que, se por um lado se arriscam a perder clientes para o lado de lá, por outro lado também correm o risco de perder funcionários já que, a fazer fé no que dizem os jornais, os salários no espaço comercial de Tui são mais do dobro do que se ganha por Valença.

02 Setembro 2008

O lixo que nos enfeita as bermas

É um cenário que, volta não volta, teima em fazer-nos companhia, seja numa estrada menos movimentada ou num caminho mais escondido, qualquer local parece ser bom para descarregar lixo. E não estou a falar dos contentores, mas daquelas pessoas que, sem qualquer pingo de vergonha, despejam electrodomésticos velhos e entulhos de todo o tipo na berma da estrada.
É uma situação que, além de ilegal, é causadora de uma má imagem que nos fica colada, de tal forma que, já não é a primeira vez, há pessoas de fora do concelho que vêm de propósito depositar o seu entulho em terras de Coura. Mas por cá também há quem o faça. E depois quem fica com o lixo somos todos nós, que aqui vivemos e que vemos as nossas bermas pejadas de “monstros” que, com um simples telefonema, estariam no aterro intermunicipal.
É um problema de mentalidade, é certo, mais do que de qualquer falta de fiscalização. Ainda assim, penso que a fiscalização poderia ser mais apertada, e sem grande trabalho, nomeadamente no que respeita aos entulhos e detritos provenientes de obras de construção civil. A sugestão, inclusivamente, já foi feita aos responsáveis camarários e passa pela criação de um espaço, no concelho, ou fora dele para servir vários municípios, onde seriam depositados esses materiais.
A fiscalização surgiria depois, feita pelos serviços municipais, que ao emitirem uma licença de obras ou de construção poderiam depois, ao fiscalizar a obra no local e sabendo de antemão se foram ou não produzidos desaterros, questionar o proprietário sobre o destino que foi dado a eventuais detritos. A sugestão, como disse, já surgiu numa reunião da Agenda 21 Local e pode não passar disso mesmo, de uma sugestão. Mas, e se fosse mais que isso?

23 Agosto 2008

Para onde foram?

E subitamente, na véspera das festas do concelho, eis que desaparecem! Acção divina? Acção criminosa? Afinal, a quem se deve a retirada das lombas no cruzamento junto ao quartel dos Bombeiros de Paredes de Coura?
Não querendo meter a foice em seara alheia, atrevo-me a dizer que entre mão divina ou mão criminosa, nenhuma das duas. Primeiro, porque quero crer que as forças divinas tem mais em que pensar do que nas lombas de Coura. E em segundo lugar porque, apesar do roubo de sinais de trânsito estar em alta, não consta que as lombas sejam feitas com o alumínio que os criminosos procuram neste tipo de furtos.
Ora, a ser assim, resta uma explicação: as lombas foram retiradas a mando da Câmara Municipal. A mesma Câmara Municipal que as mandou lá colocar em Janeiro do ano passado. No seu lugar surgiram umas marcações na estrada que, apesar de bem visíveis, em nada ajudam a reduzir a velocidade dos automóveis que por ali circulam ou a aumentar a segurança daquele cruzamento, provavelmente o mais movimentado da vila.
O porquê de se ter voltado atrás é que, à falta de explicação da autarquia, pode causar estranheza. É que, recorde-se, as lombas foram pedidas em Dezembro de 2006 por Paula Caldas, na Assembleia Municipal. Na altura Pereira Júnior explicou à social-democrata que, dada a localização do cruzamento, junto aos bombeiros, era ilegal colocar ali lombas. Tudo bem, mas dois meses depois eis que as lombas surgem na estrada, como se nada se tivesse passado, dando resposta ao pedido de Paula Caldas. Como parecia ter acontecido antes, com a instalação dos parcómetros na vila. Primeiro Paula Caldas sugeriu, a Assembleia rejeitou e meses depois a Câmara avança com o estacionamento pago à superfície.
Mas agora, com a retirada das lombas pedidas pela social-democrata, primeiro negadas, depois oferecidas, eis que pergunto: será que a eventual influência de Paula Caldas nas decisões da autarquia tem prazo de validade e já expirou? E se assim for, será que o próximo passo é acabar com todos os parcómetros da vila?

21 Agosto 2008

Meu querido mês de Agosto

Agosto chega ao fim quando ainda faltam duas semanas para o final do mês. Confuso? Eu explico, até porque não se trata de nenhuma teoria revolucionária, antes a constatação de uma realidade que, ano após ano, se repete nas aldeias e vilas portuguesas marcadas pela emigração.
Chega Agosto e com ele os muitos emigrantes que passam o ano a ganhar a vida lá fora, pelas franças e alemanhas desse mundo. A população do concelho quase duplica, garantiram-me num dos primeiros verões que por cá andei. E assim parece. As matrículas dos carros não deixam margem para dúvida e se dúvidas houvesse bastava uma ida a uma qualquer romaria das muitas que pululam por Terras de Coura durante este mês para escutar a mistura de sotaques, o português afrancesado (ou será o francês aportuguesado) e ter a certeza: estamos no mês-rei dos emigrantes.
Mas Agosto chega ao fim, e neste caso o fim de Agosto chega logo após o dia 15. É público e notório que, passado o meio do mês, a presença emigrante diminui sobremaneira. O tempo do mês inteiro de férias já lá vai, que agora são duas, três semanas e toca a andar., Não dá para mais, explicam, com um aperto no coração. É que, acrescentam, aquilo lá fora dá muito dinheiro, mas não é como a nossa terra.
“Lá temos o nosso corpo, aqui o nosso coração”. Assim mesmo, dito desta maneira, por um courense emigrado há mais de 40 anos em França, lá para as bandas de Clermond-Ferrand que encontrei por acaso na sala de espera do dentista e que, mesmo não me conhecendo de lado algum, não hesitou em partilhar comigo a sua alegria por regressar a Portugal, à sua Castanheira, uma vez no ano. “Ai e isto está tão lindo, cada vez mais”, acrescenta, enquanto não chega a sua vez. E fala das estradas que o sr. presidente mandou arranjar para se chegar mais facilmente à vila, mas também dos buracos que deixou por tapar nas ruas de Castanheira e das pedras que podiam ter cortado para alargar as estradas.Fala com o conhecimento de quem está por Coura há pouco mais de duas semanas e todos os dias pega no velho carro que trouxe de França há vários anos e que fica por cá todo o ano, para dar uma voltinha pelo concelho. A descobrir coisas novas todos os dias, garante. Coisas que vê com os olhos de quem tem apenas três semanas para consumir tudo o que o concelho tem para lhe oferecer, para durar mais um ano lá fora, nas recordações. Já passa do dia 15, está na hora de voltar. Só mais um dia e há que se fazer à estrada, com mulher, filho, nora e dois netos. Desejo-lhe boa viagem. E bom regresso no próximo Agosto, para mais um percurso pelas novidades da terra

13 Agosto 2008

Orgulhosamente sós

Não será, certamente, este o lema de Defensor Moura, presidente da Câmara de Viana do Castelo, mas é a ideia que dá a entender. A acérrima recusa em fazer parte de um Alto Minho a dez vozes torna-o, a ele e ao município por ele presidido, numa ilha no meio da união de todos os outros.
Até ontem poderia ter em Daniel Campelo e em Ponte de Lima um aliado (como se fosse possível!), mas a unanimidade com que a Câmara limiana aprovou ontem a adesão à comunidade que deveria reunir os dez concelhos do distrito deixou-o isolado. Cada vez mais… Tudo porque quer fazer valer a máxima: um homem, um voto, que daria, obviamente, mais poder aos municípios mais povoados, precisamente com Viana do Castelo à cabeça.
Não é tolo, não senhor, mas também não deixa de ter alguma razão. Contudo, quando se trata de unificar o distrito na tentativa de canalizar o máximo de apoios da Europa, não será essa uma questão de segundo plano? Se o objectivo de concorrer aos fundos de Bruxelas é, precisamente, corrigir algumas deficiências sentidas por esta região, por este distrito, não seria essa forma de gestão de uma comunidade a dez mais um agravar do fosso existente entre os grandes concelhos do distrito, nomeadamente o eixo Arcos de Valdevez/Ponte de Lima/Viana do Castelo, e os concelhos do interior, mais isolados e também mais necessitados?
Defensor Moura diz que aguarda a publicação da Lei que vai regular estas comunidades de municípios para levar o assunto a referendo popular. E se o referendo se pronunciar pelo Sim à integração da comunidade a dez, será que Defensor Moura vai acatar a decisão dos munícipes? Ou será que, como parece acontecer no caso do Prédio Coutinho, só descansará quando a decisão tomada for do seu agrado?

11 Agosto 2008

Silêncio e tanta gente

As notícias bem davam conta de que não teria havido foguetório nas festas do concelho, mas a organização trocou-lhes as voltas e o fogo sempre veio. A tragédia da Pirotecnia Minhota não estragou a edição de 2008 das Festas do Concelho.
Uma edição que trouxe muita gente até à vila, se bem que as atracções… sejam as mesmas de sempre. Mas também, se com as mesmas coisas de sempre as pessoas afluem em grande número, para quê mudar? As farturas não faltaram, os carrosséis também não, para delírio dos mais pequenos e desgraça dos pais, assim como os vendedores ambulantes que saltam de feira em feira, com artigos vindos de vários pontos do globo… e da China também. E outras bancas onde não faltam as estreias do cinema já em DVD, as sapatilhas de marca a preço muito concorrencial e aqueles óculos escuros que vimos na montra de uma qualquer loja, mas a um décimo do preço. É aproveitar, é aproveitar! Enquanto o preço não sobe ou enquanto a GNR não chega (que a ASAE ainda demora), para confiscar os artigos contrafeitos.
Não faltou também a música e, mais uma vez ficou evidente que o folclore continua a ser rei das festas de Coura. O folclore e o cortejo luminoso, contrapõem logo alguns. Que sim, concordo eu, que também se encheu a vila para ver passar o desfile dos carros alegóricos, engalanados a preceito. Mas não será o próprio cortejo, também ele, um pouco do muito folclore que temos para mostrar por Terras de Coura? Fica a questão.
As festas só terminam mais logo, com folclore, que mais haveria de ser. Nova enchente do Largo Hintze Ribeiro? É esperar para ver. Mais música até altas horas, porque parece que em Coura, durante as Festas do Concelho, ninguém prega olho. É o rancho a dançar até às tantas, o conjunto musical até mais tarde ainda e o fogo de artifício, o tão desejado fogo. Não há festa que se preze que não aposte no foguetório, como se isso fosse o símbolo máximo do valor dos festejos, e não importa a hora a que rebentam, importa é a quantidade de foguetes e o barulho ensurdecedor. Seja a meio da manhã ou da tarde, seja às duas horas da madrugada. O povo gosta? O povo aguenta? O sono recupera-se para a semana...